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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

VINHOS MINERAIS: Entender, conhecer e se encantar!

 



Os vinhos brancos, de forma geral, já trazem naturalmente aquela sensação deliciosa de frescor. Alguns, porém, vão além — e é aí que entra o conceito de mineralidade, um dos temas que mais despertam curiosidade (e paixão) entre consumidores e profissionais do vinho. Elegantes, precisos e frequentemente chamados de “vinhos de terroir”, os brancos minerais parecem conversar com algo mais profundo: a terra, a pedra, o sal, a pureza. São vinhos que fogem do óbvio e justamente por isso encantam tanto.

Mas afinal, o que dá essa tal mineralidade ao vinho branco? Ao contrário do que muita gente imagina, os minerais do solo não passam diretamente para o vinho a ponto de gerar sabor. A mineralidade é, na verdade, uma construção sensorial complexa, resultado da combinação de alta acidez, baixo pH, alguns compostos aromáticos — especialmente ligados ao enxofre — e uma textura de boca que transmite tensão, frescor e aquela salivação que dá vontade de mais um gole. É uma sensação que nasce do equilíbrio e de certa austeridade, muito comum em regiões de clima mais frio, solos pobres e vinificações pouco intervencionistas.

O terroir, claro, tem papel fundamental nessa história. Solos calcários, graníticos, vulcânicos ou de xisto tendem a produzir uvas com maior acidez natural e menos exuberância aromática, favorecendo vinhos mais lineares, profundos e com final seco. A vinificação também faz toda a diferença: fermentações em aço inox, pouco uso de madeira e contato prolongado com borras finas ajudam a preservar a pureza e a textura que reforçam essa sensação mineral. Não estamos falando de um aroma específico, mas de uma impressão tátil e gustativa que lembra pedra molhada, giz, concha, sal ou até aquela fumaça fria bem sutil.

Algumas castas e regiões viraram referência mundial nesse estilo. Na França, o Chardonnay de Chablis é talvez o maior ícone da mineralidade, moldado por solos calcários kimmeridgianos e clima frio, resultando em vinhos tensos, austeros e longevos. Ainda por lá, o Sauvignon Blanc do Vale do Loire — especialmente em Sancerre e Pouilly-Fumé — combina acidez vibrante, notas cítricas e uma mineralidade que frequentemente remete a sílex e pedra lascada. No sul francês, o Picpoul de Pinet também brilha pela salinidade e frescor.

Na Espanha, a Albariño da Galícia, sobretudo de Rías Baixas, é um exemplo delicioso de mineralidade aliada à influência marítima e aos solos graníticos, entregando vinhos vibrantes, salinos e extremamente gastronômicos. A Verdejo de Rueda, quando bem trabalhada e sem excesso de madeira, também pode mostrar um caráter mineral bem interessante. A Itália não fica atrás, com o Vermentino — especialmente da Sardenha, Ligúria e da Toscana costeira — trazendo notas salinas e pedregosas graças à proximidade do mar. Outro destaque é o Timorasso, do Piemonte, uma uva estruturada, de alta acidez, capaz de gerar vinhos minerais profundos e de longa guarda.

Em Portugal, a mineralidade encontra terreno fértil nos solos graníticos do norte. O Alvarinho de Monção e Melgaço, no Vinho Verde, une concentração, frescor e uma mineralidade nítida que cresce com o tempo em garrafa. Loureiro e Azal Branco, quando bem trabalhadas, também entregam perfis tensos e precisos. Já na Grécia, a Assyrtiko de Santorini ocupa um lugar quase mítico: cultivada em solos vulcânicos pobres e sob condições extremas, gera vinhos de acidez cortante, profundidade e uma mineralidade intensa, muitas vezes descrita como salina e vulcânica.

Uma das grandes virtudes dos vinhos brancos minerais é sua capacidade de envelhecimento. Diferente dos brancos puramente aromáticos e frutados, eles têm estrutura, acidez e equilíbrio para evoluir por muitos anos. Com o tempo, a fruta dá lugar a notas de mel, frutos secos, ervas, cera e pedra quente, sem perder o frescor. Exemplares de Chablis, Assyrtiko e Timorasso podem facilmente ultrapassar uma década de guarda.

A temperatura de serviço é crucial. Os mais leves costumam brilhar entre 6 e 8 °C, enquanto versões mais estruturadas pedem algo entre 8 e 10 °C. Muito gelados, perdem aroma, textura e expressão. À medida que aquecem levemente na taça, mostram toda a sua complexidade.

À mesa, são curingas absolutos. Frutos do mar, ostras, mariscos, peixes crus ou grelhados, cozinha japonesa, pratos cítricos, queijos frescos, risotos delicados e preparações com ervas encontram nesses vinhos um parceiro perfeito. A acidez limpa o palato e realça os sabores.

No Brasil, esse estilo cresce a passos firmes. Altitude, amplitude térmica e solos basálticos e graníticos do Sul favorecem brancos de perfil mineral. A Serra Gaúcha, o Planalto Catarinense, a Campanha Gaúcha e a Serra do Sudeste vêm mostrando ótimos resultados com Sauvignon Blanc, Chardonnay sem excesso de madeira, Riesling Itálico e Pinot Gris. Há inclusive experiências promissoras com a Assyrtiko no RS.

Tudo isso mostra que a mineralidade não é exclusividade do Velho Mundo. Ela já desponta como um dos caminhos mais interessantes para os vinhos brancos brasileiros, unindo identidade, elegância e muita vocação gastronômica — do jeitinho que eu adoro beber e indicar. 🍷

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